Review de Theory Of Perception

Antes de falar propriamente sobre o álbum em si, vale a pena descrever a banda em questão uma vez que esta não é ainda muito conhecida pelo grande público.
Blame Zeus é uma banda de rock/metal alternativo, com influências que vão desde blues ao nu metal. Formada no Porto em 2010, lançaram o álbum de estreia Identity em 2014. Atualmente é constituída por cinco membros, Sandra Oliveira como vocalista, Ricardo Silveira na bateria, Tiago Lascasas e Paulo Silva nas guitarras e Celso Oliveira no baixo.
Ao longo destas últimas semanas, a banda tem promovido o seu segundo álbum, Theory Of Perception, através do lançamento de algumas faixas escolhidas a dedo pela mesma no seu perfil na Bandcamp.

Sobre o álbum em si

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Theory Of Perception foi lançado, até hoje, sob uma única versão standard com 12 faixas, somando ao todo 51 minutos de duração que vão alternando entre um som mais pesado com outro mais suave e low-tempo.

Relativamente à capa em si, esta apresenta um ar mais abstrato e heterogéneo em contraste com a capa futurista e sombria do trabalho anterior da banda. Theory Of Perception desafia desde já o ouvinte a interpretar à sua maneira aquilo que vê na arte frontal do álbum, não pretendendo ser apenas uma capa rasa sem qualquer subjetividade por detrás.
O folheto contido no interior da caixa do disco contém as letras das faixas, todas escritas pela vocalista, os créditos, bem como uma foto da banda a dar o ar de sua graça sob a fabulosa vista para o Porto.

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Deixando a parte física de lado, Theory Of Perception começa com a agitada “Slaughter House” entregando mais uma vez o bom som que Identity nos apresentou pela primeira vez. Num ritmo um pouco mais brando e clima mais dramático entra “All Inside Your Head” – uma sugestão de que muitas vezes nem tudo o que os olhos vêm é de facto um produto real mas imaginário, imaginário esse que assombra constantemente a primeira pessoa em “Speechless”.
Mantendo o mesmo ritmo, “The Moth” levanta suspeitas de que, apesar de não possuir uma capa tão sombria quanto Identity, Theory Of Perception não é um álbum mais alegre ou emocionalmente descontraído como poderia sugerir à primeira vista.
Perto do final, “The Moth” arrasta-se num ambiente sombrio até que estende o tapete para “More Or Less” – uma faixa de influência predominantemente blues que fala sobre o fracasso da primeira pessoa em encaixar-se dentro dos ideais tidos como referência pela sociedade e a sua auto-aceitação como alguém com os seus defeitos, construindo defesas emocionais contra tudo de negativo que a rodeia.
Quebrando o ritmo lento de “More Or Less”, “The Devil” surge em cena como um dos grandes destaques não só deste álbum mas também como do reportório completo da banda com um refrão arrebatador e puramente contagiante!

Retomando com os flashbacks ao tal old school metal, “Redemption” brilha em todo o seu esplendor servindo como aquecimento para a reta final deste álbum. “Redemption” por si só já é boa, mas depressa perde o lugar para “Entertainment Clown” que nos relembra das peripécias sombrias e a ilusão de otimismo de Theory Of Perception – este é mais um dos grandíssimos destaques do álbum, reduzindo o ouvinte à mera condição de ouvinte perante algo tão grandioso e excelentemente conseguido!

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A reta final do álbum pode ser definida como uma série de excelentes faixas que culminam num grande final. “Miles” joga uma excelente batida com uma excelente performance vocal de Sandra, sem esquecer todo o esmero dos restantes elementos. É também a partir de “Miles” que o jogo “calmaria, agitação, calmaria, agitação” começa até ao último minuto do álbum. “Signs” assemelha-se a “More Or Less” no sentido em que também é percetível a ligeira influência de blues, à qual se junta toda a emoção da vocalista.
“ID” concentra em si os últimos restos de agitação, fazendo outra referência, de forma indireta, a “More Or Less”, com a sua letra que denuncia o reconhecimento da primeira das suas próprias falhas, com o diferencial que agora essa mesma entidade olha para a fortaleza emocional construída por si mesma como o seu próprio inferno, não mais como algo que simplesmente a protege.

Para finalizar com a chave de ouro temos aquela que é, provavelmente, a melhor canção alguma vez escrita/produzida pela banda até hoje, que de certa forma nos relembra “Accept” do álbum anterior. Apesar de existirem faixas mais enérgicas em Theory Of Perception, nenhuma delas capta de forma tão bela, honesta e encantadora toda a complexidade emocional presente nos corações de cada elemento dos Blame Zeus. Aqui não é apenas a emoção vocal a falar por si, todos os instrumentos corroboram na entrega do ponto máximo deste álbum. Quando “Rose” termina, paira no ar a questão “como é que acabou tão depressa?” – quando isto acontece é porque a música, enquanto “objeto passivo” desempenhou a sua função máxima, que é a de transportar o ouvinte para uma outra realidade. Simplesmente mágica.

Considerações finais

Theory Of Perception representa, em linhas muito gerais, um avanço positivo elevado em relação ao álbum anterior da banda.
Sem abandonar os Blame Zeus que os fãs já conheciam, o foco deste segundo álbum é nas emoções complexas e frágeis, ou a ausência das mesmas dependendo como queiram interpretar as letras do álbum – fica aqui a possível explicação para o título atribuído a este álbum.
Os elementos futuristas/progressivos, que de vez em quando davam sinais de vida em Identity, foram quase completamente deixados de lado desta vez, dando destaque à veia tradicionalista da banda, que se encontrava meio que adormecida no seu primeiro trabalho. Outro ponto a ressaltar é o maior destaque dado ao instrumental em praticamente todas as faixas do álbum quando comparado com Identity, no qual havia uma pequena ilusão de que o instrumental apenas estava lá como forma de apoio às capacidades da vocalista e poucas vezes se desenvolvia como algo mais independente. Desta vez os instrumentais têm maiores e mais prolongados momentos de glória ao longo das pequenas pausas vocais presentes ao longo da maioria das faixas.

No final de contas chega a ser quase considerado blasfémia o facto dos Blame Zeus não serem uma banda popular no cenário mainstream nacional – algo que poderá mudar no futuro.

Termino esta conclusão com um apelo – ouçam esta joia, leiam as letras, observem a capa e digam-me: o que conseguem ver? Uma pessoa emocionalmente frágil, ou uma pessoa emocionalmente fria e dura como uma pedra?

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NOTA FINAL: 9.1/10

 

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