Review “Bulas para Dedos e Coração”

Estranho, encantador, tradicionalista e desafiante. Estes são alguns dos adjetivos que podem melhor definir o álbum de estreia dos Projecto Sem Nome – banda formada no Porto que conta como elementos Cristóvão Siano nos vocais, Rui Cardoso na bateria, Paulo Pereira na guitarra e Eugénio Almeida no baixo.

Ainda que não tenham – diga-se só de passagem – um nome definido para o tal projeto, essa “indecisão” não se transpõe para o som que a banda entrega no álbum de estreia intitulado Bulas para Dedos e Coração. À semelhança dos seus conhecidos Blame Zeus, os Projecto Sem Nome misturam estilos tanto tradicionalistas como progressivos.
No entanto, ao contrário da banda anteriormente referida, que apesar de colocar elementos e mensagens subliminares no seu mais recente trabalho Theory Of Perception, os Projecto Sem Nome não transmitem, mesmo nos seus momentos mais básicos e acessíveis, qualquer mensagem, visual ou lírica, de forma tão clara ou direta quanto os Blame Zeus. Pode até dizer-se que a vertente complexa de Theory Of Perception é equivalente à faceta “básica” de Bulas para Dedos e Coração.

Começando pela arte da capa frontal do álbum. Não há uma referência direta sobre a temática do álbum, julgando apenas pela capa não se sabe o que por aí vem – o que torna por si só fascinante. Apesar de existir à superfície algo grandioso na copa das árvores, é nas raízes, escondidas no meio de toda a complexidade, que encontramos pedras preciosas.

Capa disco

Sobre o álbum em si

Bulas para Dedos e Coração conta com 11 faixas, somando três quartos de hora de duração exata que começam com “Até amanhã”, um misto de doce e  violento dividido por uma sensação nostálgica presente já nas primeiras notas da intro. A leveza da introdução relembra-nos, de certa forma, canções que poderiam ser produzidas por cantores nacionais como Jorge Palma ou Sérgio Godinho. Uma leveza, no entanto, que é rapidamente quebrada mesmo antes de chegarmos ao refrão. Se no início pensamos que poderíamos estar a ouvir uma música do Jorge Palma, de seguida poderemos pensar que estamos a ouvir a ponte que liga ao refrão final de “Cake And Sodomy” de Marilyn Manson.
Momentos antes do eu lírico perguntar “por onde vago eu?”, somos arremessados contra uma parede repleta de falsas promessas escritas e premonições vagas. “Fala-se de Deus na sua ausência. Fala-se do tempo, que há de chover”.

Mesmo antes do álbum prosseguir para o ambiente mais denso de “O Bastardo”, podemos já notar a sensação nacionalista presente no instrumental, bem como uma certa dose de teatralidade que continuará presente nesta viagem.
“Detalhes” demonstra também um pouco das peripécias sonoras que Bulas para Dedos e Coração ainda nos reserva – um belíssimo equilíbrio entre o rock e o metal alternativo, especialmente na ponte de ligação para a parte final desta faixa.

“Eu não paro” – canta Cristóvão, e de facto este álbum não para com as surpresas por aqui. “Identidade XXX” surpreende com a intro delicada, que marca uma pequena pausa no som mais pesado, optando pelo rock alternativo, ao invés do metal, aliado a uma excelente prestação vocal.
De seguida entra “Acácia”, que nos relembra “Até Amanhã”, tanto pela semelhança na introdução como na forma como somos atirados para um ambiente tenso momentos antes de ser declarada morte à acácia e até à própria morte – a partir daqui são inegáveis as peripécias sonoras, que em conjunto com as letras formam uma dupla destrutiva.
Apresento-vos um pequeno excerto da performance desta faixa ao vivo, no Hard Club do Porto:

Pequeno aparte: sim, no minuto 0:55 a guitarra estava fora de tom mas, tal como qualquer ser humano, todos cometemos erros e isso torna esta performance ainda mais especial.

Continuando, em sexto lugar temos aquela que é provavelmente a melhor faixa presente neste álbum – “Havia Lá”. Arrebatadora, viciante e extremamente contagiante, esta é aquela faixa que com certeza faria imenso sucesso nas rádios portuguesas e que merece ser repetida várias vezes antes de avançarmos para “Marcha Gole” – um momento em que abrandamos e nos deixamos levar por um dos momentos mais acessíveis desta obra, contando com a presença de Sandra, vocalista dos Blame Zeus.

Como já referi anteriormente, peripécias sonoras é o que não falta neste álbum. A maneira como Bulas para Dedos e Coração brinca com a calmaria e agitação esta mais uma vez presente em “Ponto Vela”, de longe a faixa mais extensa do álbum, e continua em “Intervalo”. Antes da surpresa final temos mais um momento de descanso em “Se Calhar”, faixa que encaixaria bem até na banda sonora de uma novela – detalhe que isto não foi escrito com sentido de desprezo.
Como este álbum não poderia terminar sem nos apanhar mais uma vez de surpresa, “Ele” surge em cena para nos entregar o momento mais estranho, futurista, e até assustador de todo o álbum – apesar de ser a faixa mais curta de todas, durando ligeiramente menos de minuto e meio!
No final, olhamos de lado para “Ele” e perguntamos a nós mesmos quem é o tal , o que faz ele aqui e se esse tal fará de facto algum estrago. Provavelmente ficaremos sem uma resposta, uma vez que o álbum termina logo de seguida deixando todas estas perguntas no ar.

Considerações finais

Muita coisa pode ser dita sobre Bulas para Dedos e Coração. É uma obra bastante sólida para a estreia de uma banda que não se conforma com a normalidade, ousa em misturar teatralidade com um som mais pesado em certos momentos como “Acácia” ou “Até Amanhã” sem esquecer a atmosfera saudosista nacionalista.
Por vezes, essa mesma não conformidade revela-se um pouco traiçoeira na compreensão das mensagens que nos são transmitidas. Raros são os momentos de claridade, não se sabe bem onde manter o foco – se no som ou se nas letras, tornando esta numa obra relativamente inacessível do ponto de vista interpretativo, mas não menos extraordinária.

Mesmo nos seus momentos menos positivos, Bulas para Dedos e Coração representa uma quebra de todos os estereótipos criados em torno do rock e do metal alternativo. É possível sim produzir um álbum desta natureza sonora com finalidade em dar vida à verdadeira poesia da autoria do vocalista. Acrescenta ainda a teatralidade não forçada que extravasa até ao minuto final do álbum e que também não deixa de estar presente nas performances ao vivo da banda.

Posto isto, os Projecto Sem Nome revelam ser com esta estreia uma das bandas mais singulares de todo o cenário nacional e, ouso dizer, internacional.

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NOTA FINAL: 8.5/10

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