Review: a viagem atribulada de Nelly Furtado

Após um longo período de espera por um novo álbum, o maior alguma vez feito pela cantora Nelly Furtado, ela finalmente esta de volta como um novo trabalho intitulado The Ride. 
Conhecida pelo enorme sucesso do seu primeiro e terceiro álbuns – Whoa, Nelly! Loose – Furtado fez parte da onda de artistas pop, que incluiu nomes como Vanessa Carlton, JoJo, Avril Lavigne e Michelle Branch, que remou contra o bubblegum pop da época.
Isto não aconteceu por acaso. O grande movimento de popularização de um novo teen pop no final dos anos 90, que teve em nomes como Backstreet Boys e Britney Spears um grande apoio, havia chegado a um ponto bastante desgastante e recusava-se a sair da mesma fórmula que durante alguns anos era sinónimo de grandes números, passando a ser sinónimo de estagnação e recusa em progredir para um novo som.

No entanto, havia algo que destacava Nelly de praticamente todas as outras protagonistas deste novo movimento. Furtado não se limitou a misturar teen rock com letras romantizadas de forma superficial e mais outro som pop de apelo infantil. Em vez disso, optou por influências hiphop, R&B e sons mais alternativos, colocando-lhes uma dose de sensibilidade pop que tornaram as suas criações tanto comercialmente viáveis como únicas no cenário maisntream.

A cada novo álbum, Nelly Furtado sempre mudou a sua imagem e som mas manteve a sua essência, fragilidade e inocência do pop, nunca se afastando demasiado para territórios mais sombrios e maduros – isto até que entra The Ride.

Sobre o álbum em si

The Ride conta com 12 faixas na sua edição standard, somando 45 minutos de duração que começam com o peso dos sintetizadores e a influência rock de “Cold Hard Truth”, desde já uma das melhores faixas de todo o álbum e que nos demonstra de forma curta e direta o que The Ride ainda esconde ao longo do percurso.
É percetível logo desde o início o grande afastamento de praticamente tudo o que a cantora havia feito até hoje – nem no The Spirit Indestructible, o seu álbum mais eclético, se encontraria praticamente qualquer faixa que ficaria bem neste novo trabalho, à exceção talvez de “Hold Up”.

O foco do The Ride é no synthpop pesado, com algumas baladas à mistura. “Flatline” relembra-nos com imensa facilidade algo que grupos synth como Kraftwerk já nos apresentaram no passado, neste caso em particular poderemos recordar-nos de “The Telephone Call” quando passeamos por esta faixa. “Carnival Games” quebra um pouco o clima synth da faixa anterior sem acrescentar propriamente o elemento surpresa que seria uma mais-valia neste ponto de partida do álbum, dando a ilusão que poderá ser um trabalho um pouco melancólico – felizmente não passa de uma ilusão.
“Live” marca o regresso os sintetizadores mas não com a vibe pesada de “Cold Hard Truth”. Em vez disso Furtado decide retomar com a inocência sonora típica do pop sem descolar-se do ambiente sério que nos foi apresentando antes, juntando a isto, “Live” tem as suas parecenças com “Genesis” de Grimes.

De seguida temos uma das maiores surpresas do álbum e de toda a carreira da cantora – “Paris Sun”. De alguma forma, esta faixa pega em elementos que Whoa, Nelly! nos apresentou há quase 20 anos e molda-os em algo muito mais sério, sombrio e pesado. Quando ecoa “I can be yours”, na ponte de ligação para a parte final da música, o instrumental transforma-se em algo que poderia facilmente adaptar-se para uma excelente música metal. Fica aqui uma ideia para um possível remix no futuro.
“Sticks And Stones” joga uma batida contagiante com influências folk e oferece-nos um dos momentos mais dançáveis de The Ride que continua docemente na surpreendente “Magic”. Esta faixa, apesar da sua aparente alegria e inocência, esconde na letra a dura realidade do enfraquecimento da magia quando deixamos de ser crianças e evoluímos para a fase adulta.
A partir do momento em que nos apercebemos da mensagem que esta a ser transmitida, “Magic” transforma-se em algo nostálgico que nos encanta e deixa alguma esperança em voltar a acreditar que existem de facto coisas mágicas. Simplesmente uma das melhores faixas alguma vez produzidas por Furtado!

Ao mesmo tempo que nos pede para continuar a acreditar na possibilidade de acontecerem coisas mágicas na vida, Nelly não se deixa iludir por essa mesma ideia nem tampouco a tenta transformar numa certeza absoluta. Isto porque “Pipe Dreams” entra em cena – outro momento alto da carreira da cantora – e nos relembra da necessidade do eu lírico viver com os pés em terra e na impossibilidade de nos desligarmos permanentemente do mundo real como forma de salvação dos nossos problemas. Algo duro, mas realista.

“Palaces” continua a lidar com toda esta problemática e na dificuldade em encarar as dificuldades da vida real. O lema “poderia ser, mas não é” é o que melhor define esta faixa que pega mais uma vez nos elementos folk que Nelly sempre nos apresentou e mistura-os num ritmo mexido mas não propriamente alegre. “Tap Dancing” abranda o ritmo de The Ride e ilustra a sensação de solidão da cantora que não se deixa intimidar em “Right Road” e demonstra confiança em si mesma e na sua capacidade em encontrar o caminho certo a seguir.
“Right Road” é outra das grandes surpresas do álbum devido à enorme frieza transmitida pelo eu lírico bem como, mais uma vez, a influência rock que, em conjunto com todos os outros elementos, nos oferece um momento em alta antes do álbum dar o suspiro final com “Phoenix”.

Para fechar com a chave de ouro, “Phoenix” centra-se menos na própria Nelly e mais na família que a rodeia.
“Phoenix” relembra-nos as joias produzidas por Madonna para aquele que é até hoje, indubitavelmente, o seu melhor álbum – Ray Of Light – ou a perfeição atingida por Nick Cave & The Bad Seeds no seu mais recente álbum Skeleton Tree.

Considerações finais

The Ride demonstra-nos, já a partir da arte frontal do álbum, o aspeto “sóbrio” bem como o amadurecimento de Nelly Furtado tanto ao nível sonoro como também lírico. Toda a produção em torno deste trabalho foi excelentemente conseguida e nenhuma faixa parece descontextualizada ou marginalizada.

Apesar de não ser tão dançável como Loose ou eclético como The Spirit Indestructible, The Ride sobressai em relação a todos os trabalhos anteriores não só pela excelente produção mas também pelo facto de todos os elementos corroborarem na formação daquele que pode ser considerado até hoje o álbum mais consistente, pessoal e nostálgico da cantora.
The Ride parece pegar em alguns dos elementos de Whoa, Nelly! e transforma-os em algo totalmente oposto mas ao mesmo tempo relacionável – em vez de uma Nelly infantil e brincalhona que sonha sempre mais alto, temos uma Nelly séria e mais realista que já não quer sonhar tão alto mas que continua a andar de mãos dadas com o folk e, desta vez, coloca a eletrónica num posição de maior destaque.
The Ride não se limita a ser mais um típico álbum pop e, ao fechar com “Phoenix”, Furtado demonstra que este é apenas o seu renascer.

NOTA FINAL: 9.6/10

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