Review: a fragilidade de Arca

Alejandro Ghersi, de nome artístico Arca, é um produtor, músico e DJ venezuelano de natureza única e inigualável que lhe dá uma posição de grande destaque dentro do cenário da cultura pop internacional, especialmente no ramo da eletrónica experimental.
Arca sempre foi conhecido pelo seu experimentalismo e pela forma ousada com que cria a sua arte tanto sonora, que não se assemelha a praticamente nada que exista no cenário mainstream, como visual.
Ao longo dos anos, Arca sempre foi brincando com novas sonoridades, muitas vezes buscando elementos de outras obras como Ray Of Light da cantora Madonna, deixando a sua marca nas diversas colaborações enquanto produtor de álbuns de diversos artistas como Kanye West, FKA Twigs e Björk.

Depois de lançar o seu álbum de estreia Xen em 2014 e, no ano seguinte, lançar o desafiante e instável Mutant, seguindo-lhe mais tarde a mixtape Entrañas – que foi quase que como um elo de ligação entre os dois trabalhos anteriores – Arca decide optar pelo minimalismo neste novo trabalho.

Sobre o álbum em si

Arca contém 13 faixas, somando ao todo 43 minutos de duração que começam suavemente com “Piel”, na qual o eu lírico ambiciona recomeçar sem as mesmas imperfeições e falhas do passado, como é percetível a partir da frase:

“Quítame la piel de ayer”

Pela primeira vez na sua carreira, Arca deu especial foco à voz e não ao experimentalismo berrante presente em Mutant ou mesmo em Xen, não deixando, no entanto, completamente de lado essa sua veia, como se pode perceber a partir da faixa número dois – “Anoche”.
Ao mesmo tempo que manteve o seu toque experimental, Alejandro acrescentou o seu toque intimista e pessoal de forma graciosa e delicada.

Esta sua transformação, de um ser “defeituoso”, instável e imprevisível para algo mais humano, sentimental e frágil é visível ao longo de todo este álbum.
A necessidade de começar de novo, de se livrar das impurezas e defeitos é nos relembrada em “Saunter”- uma faixa experimental que invoca de novo a frase “Quítame la piel de ayer” de forma mais intensa e que se assemelha a algo que Alejandro havia produzido no seu álbum de estreia.
“Urchin” não foge muito do que foi apresentado na faixa anterior, piscando o olho à atmosfera apocalíptica de Mutant e brincando com batidas IDM, enquanto que “Reverie” acrescenta uma ligeira influência de música rock a todos estes elementos.

A partir deste ponto do álbum, é percetível que o foco das faixas vai alternando. Algumas priorizam o instrumental e toda a atmosfera sonora surreal enquanto que outras colocam as letras como prioridade – algo inédito da carreira deste produtor uma vez que a grande maioria das suas obras são apenas de natureza instrumental.
“Castration” foca na batida insana, que em conjunto com as influência da música clássica contemporânea e ambiental torna-se um grande destaque deste álbum. Já “Sin Rumbo” pede atenção para a mensagem que nos é transmitida – um eu lírico desorientado, mas mesmo estando sem certezas sobre qual caminho seguir, continua em frente. “Coraje” segue a linha da faixa anterior, remetendo, provavelmente, para um cenário de final de uma relação em que já não resta muito a não ser destruição e fragilidade emocionais.
Como corte de toda esta fragilidade, temos aquela que é a faixa mais curta, experimental e violenta de todo o álbum – “Whip”.

“Desafío” apresenta-se como uma faixa pura e sexualmente sugestiva, o que não é novidade quando o assunto é Arca, não deixando margem para grandes dúvidas de que a letra nos fala precisamente sobre o ato de receber no sexo entre dois homens, incluindo o momento do orgasmo.

“Tócame de primera vez
Mátame una y otra vez
Ámame y átame y dególlame
Búscame y penétrame y devórame

(…)

“Yo derramaré todo mi amor
Solo aquí estaré
Y dame tu calor
Yo derramaré todo mi amor
Solo aquí estaré
Dame tu calor, calor”

Em “Fugaces” o eu lírico relembra-nos do seu estado de destruição emocional, desejando reencontrar a felicidade e não viver preso a uma constante sensação de melancolia, para além da necessidade em ir de encontro ao calor humano – que poderá ser interpretado como alguém que seja capaz de receber o amor que a primeira pessoa tanto deseja oferecer. Já na hipnotizante”Miel”, penúltima faixa do álbum, as metáforas sexuais voltam a dar sinais, se bem que desta vez a sua presença é mais suave e discreta – mas não menos percetível.

“Tú sabrás donde hay miel
Donde hay miel
Tú sabrás, tu sabrás donde hay miel
Donde hay tierra
Cómeme despacio”

Para finalizar, temos a unicamente instrumental “Child” que mais uma vez relembra a atmosfera de Xen. Sem qualquer dúvida, uma das melhores faixas de Arca que fecha com a chave de ouro um excelente álbum.

Considerações finais

Em Arca, Alejandro adotou uma postura muito mais minimalista e decidiu recuar até 2014, pegando em elementos do seu álbum de estreia e dando-lhes uma nova textura e uma nova identidade – isto sem esquecer também o seu inquietante Mutant, ainda que as suas influências passem muito mais despercebidas uma vez que Arca, à semelhança de Xen, fixa as suas raízes nos terrenos ferteis da música clássica do século XX e na música ambiental.

Com este álbum, Arca mostrou o seu lado mais humano, frágil e íntimo deixando para trás a personalidade fria e, de certa forma, distante dos trabalhos anteriores que pareciam carecer de um certo toque pessoal que os tornassem mais acessíveis e compreensíveis – em suma mais humanos.
Arca simboliza a transformação de um ser frio em alguém delicado e bastante terno, em que até o ato sexual não é marginalizado e ganha a atenção que merece como parte de uma outra forma de demonstração de amor por alguém.

NOTA FINAL: 9/10

 

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