As memórias de duas estrelas pop

Memories… Do Not Open é o álbum de estreia de uma das duos mais bem sucedidas dos últimos anos, The Chainsmokers. Sucedente ao EP Collage, o qual contém faixas como “Closer”, “All We Know” e “Don’t Let Me Down”, a dupla obteve excelentes desempenhos nas tabelas musicais usando uma fórmula relativamente fácil de assimilar e pegando em aspetos que muitos produtores haviam deixado de lado durante anos.
Ao tentar conciliar uma atmosfera dançável, sem sobrecarregar a eletrónica, com um toque mais sentimental nas letras, The Chainsmokers demonstraram ter os olhos abertos o suficiente para perceber que o público estava a precisar de algo dessa natureza. A música de discoteca poderia também ter um toque mais humano e não meramente robótico e denso.

É precisamente nesse lado mais humano e, supostamente, pessoal, que Memories… Do Not Open tenta criar as suas raízes e desenvolver-se em algo mais complexo.

Sobre o álbum em si

Memories… Do Not Open conta com 12 faixas que somam ao todo 43 minutos de duração que começam com “The One”, a faixa mais curta de todo o álbum.
Podemos desde já começar a apontar algo de errado neste álbum que se resume à forma como algumas letras foram escritas, carecendo de um tom mais sério para um álbum que pretende ser de teor pessoal.

“I know it’s pathetic
Fuck it, yeah, I said it”

Mesmo deixando completamente a eletrónica para segundo plano por uns momentos, não é um piano que por si só vai disfarçar o cariz quase infantil e superficialidade de alguns versos.

Se na primeira faixa este aspeto por si só já era um pequeno problema, na faixa “Break Up Every Night” começamos a atingir aquilo que pode quase ser descrito como uma certa desconexão lírica em certas partes:

“Been to France one time and you’re parisian
Joined the real world, new season
Check my phone, check my pulse, ain’t a reason
I kinda love it though”

O típico ouvinte provavelmente nem dará conta, uma vez que aqui a atmosfera sonora desenvolve-se em algo puramente dançável e as letras ficam completamente renegadas a um plano inferior. A partir daqui, Memories arranca de verdade em termos sonoros e vai, aos poucos, nos apresentando instrumentais rapidamente associáveis a esta duo – para o bem e para o mal. Deixemos a expressão lírica de lado por uns momentos.

Se inicialmente Memories… Do Not Open não estava a ser excecionalmente previsível, rapidamente essa sensação se desvanece e dá lugar a uma série de minutos, faixa após faixa com a mesma estrutura e as mesmas bases. Criatividade deixa de ser palavra que conste no dicionário desta dupla que insiste em fotocopiar uma fórmula e estética sonora que não ficará na memória após dois dias.
“Bloodstream”, “Don’t Say”, “Something Just Like This”, “My Type” e “Wake Up Alone” pouco passam de uma série de baladas eletrónicas que copiam as bases de “Closer”, disfarçando-as entre as diversas colaborações presentes ao longo do álbum – destaque para a colaboração com os Coldplay que, apesar de não fugir à regra da fotocopiadora impulsiva, é viciante o suficiente para ouvir várias vezes sem enjoar a curto prazo, tornando-se um dos destaques positivos de Memories.

Para além de “Something Just Like This”, outra faixa que se destaca é “It Won’t Kill Ya”, tanto pela positiva como pela negativa. Aquela que tinha tudo para ser, de longe, o ponto alto do álbum, desdobra-se num hook no mínimo embaraçoso que não encontra sequer um ponto de orientação dentro desta faixa. Tirando esta pedra do caminho, “It Won’t Kill Ya” é uma pequena memória que vale a pena ser guardada para mais tarde ser recordada.

A partir daqui quase nada ganha protagonismo, exceto, uma vez mais, um verso ou dois que deitam por terra qualquer tentativa de seriedade que nos seja apresentada, como em “Paris”

And I thought, “Wow
If I could take this in a shot right now
I don’t think that we could work this out”

Considerações finais

Há vários pontos negativos que podem ser destacados em Memories… Do Not Open. Tendo, mais uma vez, em conta que este pretende ser um trabalho de teor pessoal que pretende humanizar a dancepop – trabalho esse idealizado pelos próprios Chainsmokers como algo mais adulto do que a realidade que nos é apresentada – a sensação que temos é que a vida pessoal de Alex e Andrew pouco passou do que uma série de festas e bebedeiras que resultaram em algum tipo de problemas, pintados pelos mesmos como algo excessivamente dramático quando não o são.

As emoções, plásticas nos instrumentais que se auto-repetem, não se desenvolvem em algo mais complexo e emocionante – salvo alguns momentos em que as colaborações elevam Memories para aquilo que realmente deveria ser mas que, por sua vez, não encontram sustento no meio da plasticidade instrumental. Se em 2015 utilizar a fórmula de “Closer” teria um resultado positivo, relativamente diferente do que estava presente no mainstream, a repetição dessa mesma fórmula ao longo dos anos – faixa após faixa – atingiu o ponto de saturação máximo. Poderíamos questionar se esta famosa duo deixou de olhar para o público como algo humano mas sim como uma série de máquinas predispostas a engolir tudo o que lhes for apresentado.
O que nos foi entregue é um álbum que trata a maioria dos sentimentos como um adolescente de 15 anos faria. Existe uma certa dificuldade em encarar os reais problemas e relembrar momentos mais autênticos, dar foco a estes, e não apenas a festas e bebedeiras.

Memories… Do Not Open é um álbum extremamente dançável, ideal para aqueles que apenas pretendem esquecer os problemas – reais – da vida e aproveitar o momento. No entanto, fora do contexto de uma discoteca, o valor deste trabalho é praticamente nulo, pouco passando de um conjunto de memórias que na ressaca do dia seguinte estarão perdidas.

NOTA FINAL: 5/10

 

 

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s