A humanização da máquina em Automaton

Após quase 10 anos, Automaton marca o retorno de Jamiroquai num ambiente mais dançável, futurista e fascinante.

“Icónico” talvez não seja demais para descrever a banda britânica Jamiroquai. A combinação de elementos que vão desde a sonoridade jazz, passando pela disco, rock e eletrónica ao visual e sempre presente chapéu – se é que se pode dizer que se trata de tal – que ao longo dos anos foi alvo de diversas mudanças mas, apesar de tudo, sempre foi capaz de criar um elo de ligação visual com Jay Kay, o vocalista desta banda, e tornaram Jamiroquai num verdadeiro ícone com uma identidade muito própria no cenário musical.
A identidade visual dos Jamiroquai, que busca elementos dos nativos norte-americanos,  tornou-se tão forte e tão vincada que, apesar de já não ter nenhuma pena no agora futurista chapéu ou os chifres do “homem búfalo” que fez a sua primeira aparição há mais de 20 anos, é indissociável e inconfundível. Onde houver uma silhueta masculina com chifres de búfalo ou um chapéu com algo cujo formato relembrem penas há Jamiroquai.

Mesmo passados quase 10 anos desde o lançamento do seu último álbum, Rock Dust Light Star, quando passeamos por Automaton não torcemos de todo o nariz para o que estamos a ouvir. Automaton não nos apresenta de todo algo de novo, mas isso não é mau. Em vez de um som totalmente novo, temos ainda os elementos disco e funk de trabalhos anteriores, aliados a uma eletrónica mais vincada e menos despercebida – principalmente nos momentos iniciais do álbum como “Shake It On” ou “Automaton”.

A proposta deste álbum é colocar o homem e a máquina frente a frente. “Shake It On” fala-nos sobre a partida para uma outra dimensão, um espaço no futuro, o abandono do planeta Terra e do seu materialismo em direção a Marte. Isto tudo sem antes procurar um ponto de orientação, um sentido para a vida antes de “recomeçar” como uma máquina em “Automaton” – o ponto alto de todo o álbum.

A máquina, que se julgava imune aos estímulos sentimentais, chora por alguém que despertou o seu lado humano e vulnerável e até sexual, pela promessa de partir para um mundo melhor onde o digital lhe daria “olhos sem uma cara”, um mundo onde se questiona se realmente é aquilo que gostaria de chamar de lar. Simplesmente sublime.

Depois de “Automaton” o álbum não nos volta a apresentar outro ponto tão alto, ainda assim não se molda em algo monótono, mesmo repetindo a mesma fórmula em diversas faixas. “Cloud 9” é o início da faceta mais disco de Automaton e a eletrónica é colocada em segundo plano.
Os elementos sonoros não vão muito longe daquilo que artistas como Michael Jackson, Boney M e outros dos anos 70 – sem excluir também os próprios Jamiroquai – apresentaram no passado e que mais recentemente voltaram a ser explorados por outros nomes como Bruno Mars, The Weeknd, Pharrell e Daft Punk. O que talvez diferencie o trabalho dos Jamiroquai seja a sua abordagem mais futurista, comparável ao que os Daft Punk nos apresentaram, mas menos saturada e cansativa que este último grupo.

Tudo em Automaton é agradável e envolvente. A partir da refrescante “Superfresh” o lado sexual do álbum começa a ganhar protagonismo e continuará presente em praticamente todo o restante do álbum – não fugindo à regra de boa parte da música disco em si.
Apesar de se tornar um pouco repetitivo a certa altura, praticamente todas as faixas têm algo que as destacam, desde o sintetizador hipnotizante em “Hot Property”, à batida em “Something About You” que servem como bons tratamentos para as energias negativas. “Nights Out In The Jungle” retrata a vida numa grande cidade, que é comparada a uma grande selva de tão confusa e viciosa que é – desde o materialismo excessivo à vida noturna repleta de tentações.

“Dr Buzz” dá continuidade à descrição da selva urbana apresentada na faixa anterior. A corrupção e maldade são metaforizadas por entre os versos de “Dr Buzz” servindo como crítica social. A entidade representada pelo nome de Dr Buzz não promete dar uma cura definitiva para os problemas sociais que o eu lírico enfrenta, apenas pode ajudar esse mesmo eu a curar-se a si próprio – o poder está na essência.

As últimas três faixas não são propriamente memoráveis tanto em termos sonoros como líricos, ainda que “Carla” tenha uma letra emocionante que pretende transmitir uma lição de vida a uma jovem que ainda não tem noção dos perigos e vícios do mundo lá fora…

Um álbum robusto…

Automaton apresenta-se como um dos álbuns pop mais sólidos e coesos de 2017 em que praticamente tudo parece ter uma razão para ali estar. Apesar de não se desenrolar em algo tão envolvente como nas primeiras faixas, não se torna nunca aborrecido. É uma viagem fascinante, ainda que com algumas pedras – a formula acid jazz/funk repete-se um pouco a certa altura e, muitas vezes, só no final de algumas faixas é que surge algo que nos prende mais a atenção quando pensamos que nenhuma novidade surgirá.

Quando comparado com Rock Dust Light Star, Automaton sobressai como algo mais futurista, descontraído e com menos pausas sem abrir mão do som já conhecido pelos fãs de Jamiroquai. Um must listen de 2017 sem qualquer dúvida.

NOTA FINAL: 7,8/10

 

 

 

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