22 anos depois: o impacto de Jagged Little Pill

Os anos 90 foram uma verdadeira época dourada para a música – pessoalmente a minha década preferida em termos musicais – em que imensos novos nomes alcançaram o estrelato, uns de forma mais planeada como Britney Spears, Spice Girls, Backstreet Boys ou Mariah Carey, outros de forma inesperada mas não menos impactante como Nirvana, Björk, Marilyn Manson e Alanis Morissette.
Queiramos ou não, falar dos anos 90 sem falar de todos os nomes referidos anteriormente, seja por bons ou maus motivos, é uma blasfémia. Falar dos anos 90 sem fazer referência ao Jagged Little Pill, especialmente no contexto do rock post-grunge, é um crime gigantesco para qualquer pessoa que goste minimamente de música e os motivos são imensos.
Para nos apercebermos da importância, e dimensão, deste álbum é necessário ter em conta o contexto social e como se comportava a indústria musical naquela altura.

Um mercado dominado por homens

Se é verdade que os anos 90 foram sinónimo de bastante variedade musical, em que novos géneros borbulharam no underground até rebentarem no mainstream norte-americano e, consequentemente, internacional – a grande maioria deles emprestados da europa quando se fala do pop – essa variedade não se refletiu da mesma forma na maneira como a mulher era encarada pelo mercado, especialmente no cenário rock.

A primeira metade da década de 90 representou um verdadeiro desafio para as artistas femininas. Mesmo dentro do cenário pop muitas eram julgadas ou viam as suas qualidades serem desvalorizadas pelos media em si, nomes grandes como Madonna ou Janet Jackson foram confrontadas com muitas más línguas. Era um mundo em que o rock dominava mas a presença feminina dentro deste género ainda era extremamente colocada de parte – o papel da mulher no mundo da música era quase que encarado como apenas produtor de música pop, um género musical “convencional” que contrasta com a não conformidade do rock. Não ficava bem a uma mulher tomar a posição de “ativista” e partir para uma música mais agressiva, que bate o pé a uma série de imposições sociais e ideológicas.

Não quer dizer que antes do Jagged Little Pill não existissem mulheres a produzir rock – porque elas haviam – mas a grande maioria, ou praticamente todas, viram-se cercadas pelas boas maneiras que lhes eram impostas. As 4 Non Blondes ganharam projeção no mainstream com a bem rockeira “What’s Up”, mas não duraram muito tempo enquanto banda. Já Björk pode acidentalmente ter dado, com “Human Behaviour” em 1993, uma pequena semente para que se pudesse iniciar o processo de diversificação do rock pelas artistas femininas, mas optou por uma abordagem menos agressiva de “protesto” – coube a nomes como Alanis, dois anos mais tarde, tomando assumidamente Björk como inspiração, dar a cara num protesto mais barulhento e demonstrar o verdadeiro poder expressivo ao estilo feminista.

O lançamento e inesperada ascensão de Jagged Little Pill

Este álbum não foi planeado, sob forma alguma, para ser um sucesso comercial ou causar qualquer tipo de mudança de paradigma apesar de ter sido lançado através da editora fundada por Madonna três anos antes em 1992, Maverick Records. Começando pelo facto de ter sido lançado com expectativas comerciais baixíssimas. Esperava-se que o álbum vendesse, na melhor das hipóteses, 250 mil cópias mundialmente e nenhum lead-single foi promovido antes do lançamento de Jagged Little Pill, resultando no mesmo a estrear fora do top 100 norte-americano apesar da boa receção inicial por parte da crítica. O lançamento deste álbum foi igual ao de um barco sem remo e sem rumo, em pleno mar, ao sabor da corrente, destinado à sua própria sorte.
No mês seguinte ao seu lançamento em junho, o primeiro single “You Oughta Know” foi lançado e, aos poucos, o cenário foi mudando quando a faixa começou a ser passada nas rádios – inicialmente com pouca frequência mas, com a ajuda de um influente DJ, rapidamente espalhou-se por todo o território americano como uma epidemia.

O que tinha “You Oughta Know” que a tornava tão especial naquela altura? As respostas podem ser várias. Apesar de não ser um som propriamente inovador, o que estremeceu o mercado musical não foi o instrumental – que se assemelhava ao que outros nomes já haviam produzido antes – mas sim o conteúdo lírico. Não é todos os dias que vemos uma mulher ser tão frontal, agressiva e honesta ao ponto de confessar numa canção a prática de sexo oral no cinema como Alanis Morissette o fez. Também não passou ao lado a pergunta “ainda pensas em mim quando fodes com ela?”, feita de forma nada discreta, propositadamente frontal, nua e crua.

Com o sucesso inesperado do lead-single, foi questão de tempo até que todos os singles lançados ao longo do ano seguinte ganhassem também destaque nas rádios e na MTV, sendo “Ironic”, provavelmente, o mais icónico da cantora e presença obrigatória em qualquer playlist que homenageie esta década.
Com o sucesso dos singles veio também o do próprio álbum, que rendeu 5 Grammy Awards entre 96 e 98 e 9 Juno Awards, ambos de diversas categorias incluindo “Álbum do Ano” e “Melhor Álbum Rock”.

Jagged Little Pill foi um verdadeiro caso de sucesso no que toca a longevidade comercial, passando 12 semanas não consecutivas em primeiro lugar e 69 semanas no top 10 norte-americano – algo que só Michael Jackson e Celine Dion conseguiram igualar até hoje. Inicialmente projetado para vender umas míseras 250 mil cópias, chegou ao ano de 2000 já com 28 milhões de cópias vendidas e, em 2015, esse valor havia subido para as 35 milhões, colocando-o entre os 15 álbuns mais bem sucedidos de sempre e o segundo mais bem sucedido de sempre por uma artista feminina – perdendo o primeiro lugar para Come On Over de Shania Twain, lançado em 1997 com vendas estimadas em 40 milhões de cópias até hoje.

Influência posterior

A curto prazo, Fiona Apple foi uma das vozes que depressa foi colocada no mesmo patamar que Alanis Morissette – sendo não pouco frequentes as comparações entre ambas – após o lançamento do single “Criminal”.

Outro grande nome que se inspirou em diversas estrelas rock, incluindo Alanis Morissette como uma das suas principais influências, é Shakira. Talvez possa parecer estranho, especialmente tendo em conta que Shakira começou a ter uma projeção maior quando optou por seguir caminhos mais pop e colocando o rock para segundo plano, mas é notória a influência que a cantora canadense teve no início da sua carreira, principalmente no segundo álbum. Em performances de faixas como “Si Te Vás”, Shakira projeta a sua emoção da mesma forma que Alanis fez em Jagged Little Pill. A beleza da raiva feminina era quase que glorificada, algo que quase não acontecia pré-1995.

O álbum foi também citado como uma das principais forças e fontes de inspiração para novas artistas femininas como Pink, Avril Lavigne e até Katy Perry, que numa entrevista à Billboard confessou a sua admiração por Alanis, afirmando que Jagged Little Pill foi “o álbum mais perfeito alguma vez feito por uma artista feminina”.
Para além disto, diversas foram as listas elaboradas por críticos que colocaram o álbum entre os melhores destaques da década de 90 e mesmo de todos os tempo, tendo também entrado na lista dos “1001 Álbuns Que Deves Ouvir Antes de Morrer”.

Existem muitos elementos que parecem, de facto, básicos e que podem passar ao lado até porque, observando o progresso da expressão feminina ao longo destes mais de 20 anos, os altos e baixos que sofreu e os elementos comuns presentes nas mais diversas vozes, parece haver sempre a certo ponto uma ligação – mais ou menos notória ou agressiva – com aquilo que Alanis Morissette apresentou ao mundo em 1995. A expressão dos sentimentos das mulheres deixou de ser visto apenas como algo plástico como o pop nos quer apresentar mesmo nos dias de hoje – e isto precisa urgentemente de mudar.

Que conclusões podemos tirar de uma obra-prima como Jagged Little Pill?
A primeira é que o cenário mainstream esta a precisar de algo cru, honesto e (r)evolucionário como este trabalho. Não é necessário uma voz que grite feminismo como quem diz “olhem para mim, sou feminista!” – algo que muitas cantoras parecem fazer hoje em dia porque, dizem, é fixe, mas que acabam por virar mais uma marioneta feita para gastar tinta nas revistas e jornais e tentar vender música.
A segunda conclusão, mas não menos importante, nunca se deve subestimar o poder de uma mulher.

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