Review: as várias faces de Danse Macabre

Haverá qualquer coisa definitivamente fora do normal nos ares de Sintra, que terá servido de inspiração para a materialização do álbum Danse Macabre, dos Legacy Of Cynthia. Praticamente tudo, deste a arte frontal do álbum até à sua concepção sonora, foge dos padrões normativos quando falamos de rock ou metal. Mesmo dentro do cenário alternativo, Danse Macabre destaca-se com uma personalidade e estética muito próprias.

Há uma estória, ou história, ou mito se for da preferência do leitor, típico desta região que fala sobre as pegas do Palácio Nacional de Sintra, atribuindo-lhes a simbologia de emissores de uma determinada mensagem que ecoaria de forma gritante e bem audível por onde passassem.
Talvez esta não seja a interpretação universalmente aceite, ou pelo menos a explicação mais detalhada deste mito, mas parece haver uma certa ligação entre o som estridente das pegas e a mensagem, ou mensagens, que Danse Macabre carrega de forma, diria, orgulhosa por entre as faixas mais berrantes como a introdutória “Cabaret” assim como “Walking Cadaver”.

“Cabaret” parece também dar uma pista de uma das várias influências sonoras deste álbum. Em certas alturas parece haver inspiração na música tocada ao longo dos tempos em cabarets, moldando-a para se adaptar também ao cenário moderno do metal em conjunto com as influências de soft rock mas também sonoridades mais progressivas como em “Monkey 27”.

As tais pegas falam “por bem” de um eu lírico frágil e fracassado, ao mesmo tempo agressivo e conflituoso, inserido num ambiente degradante. Essas facetas do eu lírico refletem-se na sonoridade do álbum em si, alternando entre um som mais pesado como na faixa de abertura e ambientes mais depressivos como “Suicide Note”.
Nos momentos iniciais o foco parece ser nos defeitos coletivos, a podridão e vazio sociais, mudando lentamente o foco para uma entidade singular que absorve tudo de negativo à sua volta e converte-se numa representação individual dos mesmos defeitos que empestam a sociedade.

Voltando a falar do aspeto sonoro, não há praticamente nenhuma faixa que pareça descontextualizada ou que soe a mais um “enche-chouriços”. Ainda assim não são todas intocáveis.
Entre os destaques temos “Walking Cadaver”, uma estrondosa representação do estado adormecido da sociedade que nada faz para combater a sua destruição, “The One Eyed King”, que se foca na fragilidade do eu lírico em vez da coletividade, e “Suicide Note”, possivelmente o ponto máximo de Danse Macabre que nos toca precisamente naquele ponto bastante frágil, simplesmente genial!

Em termos vocais, o desempenho só pode ser descrito como algo autêntico, envolvente e emocionante. De se tirar o chapéu a algo que tanto parece soar frágil como poderoso e, diria, sedutor ao mesmo tempo!

 

Várias facetas, uma só força…

Apesar de viajar entre vários estilos sonoros, entre o soft rock e o metal, passando pelo hard rock, Danse Macabre é mais consistente do que poderá parecer.
Ao manter o foco na crítica social, e a sua personificação numa entidade frágil e também corroída, o álbum não soa a algo perdido no tempo e no espaço. De uma forma quase curiosa, Danse Macabre parece ser um álbum feito com os olhos postos no final do século XIX e início do século XX, buscando elementos sociais dessa época e que, mesmo nos tempos correntes, continuam bastante presentes a vários níveis.

Não basta a sua singularidade na arte frontal da capa do álbum, Danse Macabre parece ser uma obra criada há muito tempo e que, por vontade do destino, só viu a luz do dia no tempo presente sem perder uma pitada de vanguardismo e carisma. Um verdadeiro álbum à frente do seu tempo, mesmo para os padrões contemporâneos do rock.

NOTA FINAL: 8.8/10

 

 

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